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terça-feira, 19 de abril de 2022

Depressão nos personagens bíblicos?

 Depressão nos personagens bíblicos?

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A Bíblia é (ou deveria ser) a regra de fé e prática dos cristãos. Teoricamente isso significa que as Escrituras, corretamente interpretadas, devem ser o crivo para o cristão interagir com todas as cosmovisões ao seu redor, avaliando-as e julgando-as a fim de reter o que é bom (1Ts 5.21). Teria de ser desta forma, pois o salmista afirma ser a Palavra a lâmpada para nossos pés e a luz para o nosso caminho (Sl 119) e o Senhor Jesus afirma ser ela “A verdade” (Jo 17.17).

Porém, para muitos crentes, na prática a teoria é outra. Inundados pelo modo de pensar deste século, crentes sinceros têm se descuidado e feito justamente o contrário, interpretado a Bíblia com pressupostos seculares.

Dia desses deparei-me com um texto assim. Nele, o autor se propõe a tratar de depressão e espiritualidade. Ele começa falando da depressão, principalmente da mulher, sob uma perspectiva médica, afirmando ser um conjunto de sintomas que merecem atenção profissional, médica e psicológica. Segundo o texto:

A depressão feminina está ligada a causas biológicas (puberdade, ciclo menstrual, gravidez ou infertilidade, pós-parto e menopausa), causas culturais (papel da mulher, status social, abuso sexual) e causas psicológicas (estresse, reação às perdas e aos conflitos, discriminação).[1]

O autor explica ainda que a depressão é classificada tradicionalmente em endógena e exógena, sendo a primeira originada por causas internas (biológicas ou predisposições hereditárias) e a segunda causada por fatores externos, como se fosse uma reação a fatores ambientais e circunstanciais (desemprego, divórcio, etc.).

O tratamento, segundo ele, deve seguir dois procedimentos, a avaliação e diagnóstico por um profissional médico e a escolha do tratamento adequado, sendo tratamentos eficazes o medicamentoso e a psicoterapia.

Assumidos os pressupostos, parte-se então em uma busca para provar a depressão biblicamente e, de acordo com os sintomas da depressão descritos no texto, chega-se à conclusão de que Jó, Moisés, Jonas, Davi e, surpreendentemente, o próprio Senhor Jesus passaram por depressão. A evidência seria eles terem pedido para morrer ou, no caso de Davi, ter os ossos e o humor afetados pela depressão. Para o articulista esses exemplos provam o realismo bíblico da depressão demonstrando que a fé não livra o homem de problemas mentais, mas também trazem esperança. Citando Hebreus 2.18 e 4.15 ele afirma que Jesus pode compadecer-se de quem enfrenta depressão por ter ele mesmo sofrido com isso.

Por fim o autor afirma que muitos substituem o tratamento médico pelo religioso por causa de preconceito, por falta de informação ou em nome de uma grande fé e lembra ser a medicina uma bênção do Senhor e os remédios, meios divinos para nossa cura, pois Deus cura extraordinariamente por meio de um milagre, mas ordinariamente cura pessoas por meio de um tratamento médico.

Verificando as implicações

Se assumirmos como corretas as interpretações dos textos bíblicos e as afirmações feitas pelo autor, temos sérias implicações:

1. Certos tipos de emoções e comportamentos (desânimo, tristeza “desproporcional às circunstâncias, aumento ou diminuição do apetite, pensamentos, planos ou tentativa de suicídio, etc.”), devem ser encarados como patológicos;

2. Tivessem os personagens bíblicos citados, incluindo o nosso Senhor, a bênção de viver num tempo em que já existe o Rivotril, a sua “doença” poderia ter sido curada por Deus de modo “ordinário”. Falar da profunda tristeza de Jesus como se fosse desejo de morrer é dizer o que o texto não diz, como ficará claro mais à frente;

3. Conselheiros bíblicos não estão aptos a aconselhar pessoas com depressão, devendo esse trabalho ser feito sempre por profissionais psicoterapeutas;

4. A “conversa psicoterapêutica” é mais eficaz que a “conversa bíblica”;

5. Discordar da perspectiva do articulista sobre a depressão é ser mal informado, preconceituoso e, praticamente, um adepto da confissão positiva.

Para provar ser a depressão uma doença que deve ser tratada de forma medicamentosa, o autor recorre a exemplos bíblicos que “demonstram” a sua realidade. A ironia está no fato de que nenhum dos “depressivos bíblicos” foi tratado com remédio, por razões óbvias.

Testando biblicamente – textos nos seus contextos

Como afirmado no início deste artigo, a Bíblia corretamente interpretada é o parâmetro para julgar todas as outras coisas, e não o contrário. É preciso, então, verificar os textos em seus devidos contextos a fim de afirmar o que estava acontecendo com cada personagem diagnosticado com depressão.

Antes, porém, de nos atermos aos textos, é preciso estabelecer novos pressupostos:

1. A Bíblia ensina que somos governados por nosso coração e o que governa o nosso coração governará a nossa vida (Mt 6.21; Mt 15.19; Sl 141.4);

2. A forma como respondemos às pessoas e circunstâncias dependerá, portanto, daquilo que está governando o nosso coração. Como exemplo, lembremos a negação de Pedro. A despeito de saber o que era o certo a se fazer, acabou por negar o Senhor com medo de morrer;

3. Nossas ações e emoções são fruto da nossa interpretação da realidade. Ainda pensando em Pedro, ele interpretou que os homens eram maiores que o Senhor e que não estaria seguro falando a verdade, ainda que já tivesse ouvido do próprio Jesus que até os cabelos de sua cabeça estavam contados e que, por isso, não precisaria temer os que matam o corpo (Mt 10.16-33).

Assumidos os novos pressupostos, vejamos os textos:

A “depressão” de Jó

Jó é descrito no começo do seu livro como um homem íntegro, reto e que se desviava do mal. O Senhor chega a afirmar a Satanás que não havia na terra homem semelhante a ele (Jó 1.8). Depois que Satanás acusa Jó de servir a Deus somente por ser alvo de suas bênçãos, é permitido que o tentador tire tudo dele. A partir daí a história se desenvolve de forma maravilhosa.

No princípio, Jó faz uma afirmação de fé formidável. Após sua esposa mandá-lo amaldiçoar a Deus e morrer ele diz: “Temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (2.10).

Porém, a partir do capítulo 3 Jó parece interpretar os fatos de outra forma. Sendo ele justo, não poderia estar sofrendo daquela forma, antes tivesse morrido na madre. Isso pode ser confirmado em todo o capítulo 31, no qual Jó fala de suas qualidades ao responder aos seus amigos chegando, por fim, a dizer: “Tomara eu tivesse quem me ouvisse! Eis aqui minha defesa assinada! Que o Todo-Poderoso me responda.” No primeiro versículo do capítulo 32 temos: “Cessaram aqueles três homens de responder a Jó no tocante ao se ter ele por justo aos seus próprios olhos.”

A partir do capítulo 38 Deus, em vez de responder a Jó, lhe faz uma série de perguntas que revelavam seu poder e sua soberania. Ao final, diz o Senhor: “Acaso, quem usa de censuras contenderá com o Todo-Poderoso? Quem assim argui a Deus que responda” (40.2).

O resultado é maravilhoso. Jó afirma: “Sou indigno; que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca. Uma vez falei e não replicarei, aliás, duas vezes, porém não prosseguirei.” Jó reconhece que a realidade era diferente daquela que ele interpretava, mas Deus continua com mais uma série de perguntas que apontavam para a sua sabedoria. Ao final Jó confessa que nenhum dos planos de Deus pode ser frustrado e afirma que o conhecia apenas de ouvir, mas que agora que o via se abominava e se arrependia (42.1-6).

A “depressão” de Jó foi causada por uma falsa interpretação da realidade e o tratamento de Deus foi fazê-lo ver com clareza que as coisas não eram como ele entendia. O Senhor confrontou Jó, com sua Palavra, e restaurou-o.

A “depressão” de Moisés

O caso de Moisés é interessante. Desde o começo de seu chamado ele se mostra bastante relutante e, vez por outra, esquecia a promessa feita por Deus ao comissioná-lo: “Eu serei contigo” (Êx 3.12). No episódio em que pediu ao Senhor que o matasse, estava mais uma vez murmurando, pois o povo continuamente reclamava por não ter carne (Nm 11.4). Ele estava achando ser muito pesado o seu encargo e que faria as coisas por sua própria força (Nm 11.14).

A primeira coisa que o Senhor faz é distribuir o trabalho com 70 anciãos e, com menos trabalho, a murmuração de Moisés terminaria, certo? Errado! Deus afirmou que alimentaria o povo e daria tanta carne em um mês inteiro a ponto de sair pelo nariz e o povo se enfastiar dela. Moisés entendeu que novamente seria muito trabalho para ele e reclamou, insinuando ser impossível para ele prover carne para o povo o mês inteiro (Nm 11.22).

Deus trata Moisés confrontando-o: “Ter-se-ia encurtado a mão do Senhor?” (Nm 11.23). Em outras palavras, Deus estava dizendo a Moisés que não precisaria reclamar e se preocupar, pois ele era o provedor.

Mais uma vez o desejo de morrer foi por não confiar no Senhor e o tratamento foi o confronto com as promessas de Deus e a interpretação da realidade pela perspectiva correta.

A “depressão” de Jonas

Jonas é visto no texto como um doente que sofria de grave melancolia ou distimia crônica. Uma leitura rápida do livro já revela a razão de ele pedir a morte. Jonas é chamado por Deus para pregar aos ninivitas, povo poderoso, inimigo de Israel. A primeira coisa que o profeta faz é fugir, ele não queria ver os ninivitas convertidos. Depois do episódio em que é lançado no mar e engolido por um peixe, Jonas acaba parando em Nínive onde prega o sermão mais duro que se poderia pregar e, para sua surpresa, o povo crê em Deus.

O capítulo 4 começa afirmando que, por causa disso, Jonas desgostou-se e irou-se. O texto é claro, o profeta diz que fugiu porque sabia que Deus era misericordioso e, agora, com os ninivitas convertidos, era melhor morrer que viver. Jonas revela um coração egoísta, que não confia nos propósitos de Deus. Ele queria fazer melhor que o Senhor, mas já que isso não foi possível melhor seria a morte.

Deus trata o profeta confrontando o seu egoísmo e demonstrando que da mesma forma que tinha compaixão de uma árvore o Senhor também tinha dos ninivitas. O Senhor estava mostrando a Jonas que a maneira de ele interpretar as circunstâncias estava equivocada.

A “depressão” de Davi

A depressão de Davi é “constatada” não pelo fato de ele ter pedido a morte, mas dos seus ossos e humor terem sofrido seus efeitos. A questão é que esse sofrimento, visto como consequência da doença, era o tratamento de Deus ao rei, que não estava arrependido. Considerando estar Davi doente, a contextualização do Salmo deveria ser: “Enquanto não tomei rivotril, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos noite e dia.”

Porém, como pode ser visto em Hebreus, a disciplina de Deus sobre os seus filhos no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza, mas ao final produz fruto de justiça (Hb 12.11). A tristeza causada pelo peso da mão de Deus constitui-se uma bênção e é parte do processo de reconhecimento do pecado por parte do crente.

Cada um dos casos citados acima, devidamente observados dentro de seus contextos, revela crentes sofrendo profundamente por não interpretar as circunstâncias pela perspectiva das promessas da Palavra de Deus, por não descansar no governo de Deus ou por ocultar o pecado.

Se fossem medicados poderiam até, por um tempo, ter o seu sofrimento aliviado, mas não teriam o pecado do seu coração tratado, o que só pode ser feito pela Palavra de Deus que “é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12).

A “depressão” de Jesus

O caso de Jesus foi deixado para ser tratado à parte, pois sua tristeza não foi ocasionada pelas mesmas razões dos outros personagens.

O autor do texto faz duas afirmações e a implicação óbvia é a de que Jesus precisava mesmo era de um tarja preta. São elas: a) Jesus passou por uma depressão profunda e b) ele desejou morrer.

Essas afirmações resistem a um exame do texto? Creio que não, como veremos.

Depois de três anos ensinando os discípulos, curando e anunciando o reino, se aproximava a hora em que o Senhor derramaria o seu sangue para redimir o pecador. Ele chama seus discípulos e sobe o Getsêmani a fim de orar e chamando à parte Pedro, Tiago e João afirma estar profundamente triste, até a morte. Essa frase expressa a profunda tristeza de Jesus, mas será que revela que ele desejou morrer? Olhando para o versículo seguinte fica bem claro que não. Nele Jesus ora rogando ao Pai que, se possível, passasse dele o cálice, ou seja, ele pede exatamente o contrário, pede para não ir para cruz.

O que angustiava Jesus era justamente a morte, pois ela significaria receber a ira de Deus pelos pecados do seu povo, que ele estaria assumindo no Calvário. Por causa dos nossos pecados o Senhor morreria e sentiria o desamparo do Pai, a ponto de clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

A afirmação de que Jesus estava triste e pedindo a morte por estar com depressão é então uma falácia. Nem todo o Prozac do mundo aliviaria sua tristeza por ter a comunhão perfeita com o Pai quebrada por causa dos nossos pecados.

Quando o autor afirma, portanto, que Jesus pode compadecer-se de nós por ter sido tentado da mesma forma, ele faz uma afirmação correta, mas parte de uma premissa equivocada. Jesus não pode compadecer-se de doentes por ter experimentado a doença da depressão, mas compadecer-se de homens que são tentados a não confiar no plano de Deus, por ter ele mesmo sido tentado a abandonar o Calvário, mas, em vez disso, ter se submetido à vontade do Pai ao declarar: “Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). É por isso que o escritor de Hebreus afirma que “foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (4.15).

Para terminar...

É um grande equívoco assumir como pressupostos teorias científicas e interpretar os episódios de profunda tristeza de personagens bíblicos com lentes seculares. Essa será uma tarefa sempre impossível, pois para a medicina a depressão é caracterizada por um conjunto de sintomas e não pela presença de um ou dois apenas.

Não é objetivo deste texto minimizar o sofrimento humano, de forma alguma. Ele é real e deve ser sempre tratado. A questão aqui gira em torno do “como” tratar. No artigo “Uma crítica do DSM-IV à luz da Bíblia”[2], John Babler afirma acertadamente:

As Escrituras são o caminho apropriado para o entendimento dos assim chamados transtornos mentais: eles consistem em comportamentos derivados do pecado. Uma mudança verdadeira pode acontecer a partir do momento em que o pecado é admitido e há arrependimento. Quando o problema consiste em um coração perdido, a Palavra de Deus é o remédio mais seguro porque o Espírito Santo nos conduz a Cristo.[3]

Alguns podem afirmar que o que foi tratado aqui serve para a chamada depressão exógena, mas não se aplicaria à endógena por esta ter causas biológicas e hereditárias. É importante, então, fornecer algumas informações.

A revista Superinteressante de dezembro de 2010 noticiou que uma pesquisa recente aponta para o fato de que os antidepressivos causam depressão. Isso porque, contrário ao que se pensava, a depressão não é causada pela falta de serotonina no cérebro, mas pelo excesso desse neurotransmissor. Como o antidepressivo aumenta os níveis de serotonina, acaba tendo o efeito contrário ao desejado.[4]

Essa perspectiva não é nova. Thomaz Szasz, psiquiatra e acadêmico, é um ferrenho opositor da ideia da depressão como doença. Quando questionado em uma entrevista sobre a eficácia dos medicamentos ele respondeu:

Não vejo dificuldade em explicar isso. O comportamento humano, seja normal ou anormal, não acontece no vácuo, obviamente ele é mediado pelo modo como o corpo e cérebro da pessoa funciona, e o fato de substâncias químicas afetarem o cérebro em instituições mentais não é mais misterioso do que cerveja, álcool ou outros tipos de bebida afetarem pessoas normais. Elas vão pra casa após um dia de trabalho, se sentem cansadas e deprimidas e tomam alguma bebida e se sentem melhor. Isto não quer dizer que elas estavam doentes antes. Podemos tomar vários tipos de substâncias químicas que afetam nosso comportamento. Isso de maneira alguma prova que o estado anterior era um estado de doença médica.[5]

Outro psiquiatra afirma que, desde que os antidepressivos foram lançados no Reino Unido, pelo menos uma pessoa por semana cometeu suicídio enquanto os tomava, e não teriam cometido se não os tivessem tomado.[6]

Como se pode perceber, não há toda essa unanimidade em relação às causas biológicas da depressão, tampouco sobre os efeitos dos antidepressivos. A desconfiança não parte apenas de “religiosos em nome de uma grande fé”, mas também de médicos e pesquisadores.

Enquanto a ciência não chega a uma conclusão, temos a infalível Palavra de Deus. Somente a Lei do Senhor é perfeita e restaura alma (Sl 19.7) e, como afirma o apóstolo Pedro, pelo conhecimento de Cristo temos todas as coisas que são suficientes para a vida e piedade. Crer nisso não é preconceito ou falta de informação, mas convicção de que Cristo Jesus é plenamente suficiente na vida dos crentes.



[1] http://www.ippinheiros.org.br/?p=613

[2] DSM é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, livro de referência decisivo para os diagnósticos psiquiátricos, e que está em sua quarta edição

[3] John Babler. Uma crítica ao DSM-IV à luz da Bíblia. in: Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, v. 2, CCEF e SBPV

[4] http://super.abril.com.br/saude/anti-depressivo-pode-causar-depressao-614371.shtml

[5] http://scienceblogs.com.br/psicologico/2009/04/thomas_szasz_entrevistado_sobr.php

[6] http://www.youtube.com/watch?v=j63-8Ac3dh0

quinta-feira, 10 de março de 2022

A Palavra de Deus e a salvação

 A Palavra de Deus e a salvação

pregador expositivo

                                                                                                                    Pr ilton Jr

Quando escreveu sua segunda epístola a Timóteo, Paulo, após elogiá-lo, fez uma recomendação: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Tm 3.14,15).

O texto é claríssimo e ensina que a Palavra de Deus é suficiente, ou melhor, é a única fonte para que alguém se torne sábio para a salvação pela fé em Cristo.

Ainda assim, muitas denominações evangélicas têm se deixado influenciar pelo pragmatismo e têm recorrido a vários métodos que supostamente têm dado certo para trazer pecadores ao “arrependimento”. O problema aqui é que, na ânsia de trazer pessoas para as igrejas, os métodos não têm sido questionados e analisados pelo crivo da Santa Palavra de Deus.

Como exemplo disso temos as várias igrejas ligadas a um movimento denominado “Sensível aos Interessados”. Esta ideia está presente em um livro que há alguns anos foi moda no Brasil, Uma igreja com propósitos. Neste livro o autor, Rick Warren, divulga ideias do tipo: pregar o evangelho nos termos do incrédulo a fim de que seja agradável e fácil eles se tornarem crentes, e mudar os métodos sempre que necessário. Para isso, ele ensina: “Estabeleça um culto voltado intencionalmente ao objetivo de que os membros da igreja tragam seus amigos. E torne esse culto tão atraente, agradável e relevante aos sem-igreja, que os membros de sua igreja ficarão ansiosos por compartilhar esse culto com os perdidos pelos quais eles se interessam.”[1]

John MacArthur afirma que alguns dos gurus desse movimento aconselham inclusive a retirar do sermão todas as referências explícitas à Bíblia e ensinam a nunca pedir à congregação para abrir a Bíblia em um texto específico, pois os “interessados” ficam desconfortáveis com essa atitude.[2]

Para esse tipo de movimento, a quantidade de pessoas atraídas ao culto valida o método, afinal, os fins justificam os meios.

Infelizmente não são poucos aqueles que têm aderido a esses modismos para ver a igreja crescer. De fato, muitas igrejas crescerão dessa forma, mas será que haverá vidas salvas e transformadas?

Precisamos crer de todo o coração no que Paulo afirmou a Timóteo: as Escrituras é que tornam o homem sábio para a salvação. O próprio Senhor Jesus afirmou certa vez: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38). Paulo, agora escrevendo aos romanos, assevera que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17).

É por meio da Palavra de Deus, e não de técnicas humanas, que o Espírito Santo convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Por esta razão é que Paulo, depois de afirmar a Timóteo que a Palavra de Deus é que torna o homem sábio para a salvação, continua sua argumentação dizendo que toda a Escritura é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2 Tm 3.16). Essa utilidade da Escritura, conforme Paulo, tem um fim: é para “que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.17).

Ao crer na suficiência das Escrituras para a salvação, a igreja não precisará recorrer a métodos humanos para que os homens creiam e, assim, glorificará o Senhor.

O livro de Atos dos Apóstolos nos ensina claramente que o crescimento da igreja está intimamente ligado à Palavra de Deus, a ponto de Lucas, ao se referir algumas vezes ao crescimento da igreja, afirmar: “crescia a Palavra de Deus” (At 2.42,47; 6.7; 12.24; 16.4,5; 19.18-20).

O Senhor Jesus, ao comissionar os seus discípulos, não pediu que eles inventassem métodos e nem que negociassem a Palavra, antes ordenou que eles fizessem discípulos ensinando-os a guardar tudo o que ele havia ordenado (Mt 28.19,20). Isso implica que a Palavra é suficiente e, portanto, deve ser proclamada tal como é. Os resultados pertencem ao Senhor.

Não devemos dar lugar ao entretenimento ou à busca da satisfação pessoal, pois não é isso que traz salvação ao homem. Como ensinou o nosso Senhor, a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17.7) e é a verdade que liberta o homem (Jo 8.32).

Creiamos, portanto, que a Escritura é suficiente para a salvação.


[1] Rick Warren. Uma igreja com propósitos. São Paulo: Vida, 1997, p. 253

[2] John MacArhur. Pregação Superficial. In “Fé para Hoje”, nº 30 – ano 2007: São José dos Campos: Fiel, p. 7


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sábado, 5 de março de 2022

COMO ESCOLHER O FUTURO CÔNJUGE?

 COMO ESCOLHER O FUTURO CÔNJUGE?

                                            Pr Alfredo de Souza

Quero mais uma vez tratar sobre namoro, tema bastante discutido aqui neste espaço. Primeiramente, desejo dizer que sou contra o modelo utilizado por nossa cultura brasileira, ou seja, um relacionamento recheado de beijos bucais e abraços eróticos que só promovem a excitação sexual e a defraudação. Recomendo as demais postagens sobre o assunto escritas por meus colegas aqui mesmo neste espaço virtual.

É preciso dizer que por namoro entendo aquele período de diálogo, oração e comunhão com os pais, período este destituídos de qualquer contato físico que promovam, por menor que seja, a excitação sexual.

A reflexão proposta aqui é sobre a escolha do futuro cônjuge, uma vez que muitos jovens cultivam dúvidas quanto ao assunto. Dúvidas que promovem a seguinte pergunta: “como saber a vontade de Deus para saber com quem devo me casar”?

Ao contrário daquilo que muitos pensam, esta importante escolha não ocorre por uma revelação vinda do alto ou por um sonho de uma noite de verão. Ela ocorre por uma utilização da inteligência que possui como lastro as Sagradas Escrituras e a confiança na ação de Deus que responde a nossa oração conforme o amor, a justiça e a misericórdia.

Indo direto ao assunto, quero propor aqui quatro critérios para a escolha daquele ou daquela que caminhará conosco até o fim da vida:

Compatibilidade de fé: Para que duas pessoas pensem em casamento devem, a rigor, saber que iniciar um relacionamento com descrente é, indiscutivelmente, estar em pecado diante do Senhor Deus. A Lei divina é clara quanto a isso: é proibido o ajuntamento entre um crente e um descrente. Muitos tentam relativizar este princípio indelével e caro ao Senhor que adotou para si mesmo a exclusividade de seus filhos. Mas o jugo desigual é abominação. Isto posto, também acredito que devemos pensar em jugo “desigual” (aspeado mesmo) entre duas pessoas que se denominam evangélicos. O ponto a se ponderar é a teologia envolvida que, via de regra, são opostas em aspectos que envolvem a eclesiologia (visão de igreja, liturgia, forma de batismo etc.) e pneumatologia (doutrina que trata do Espírito Santo). Não tenho dúvidas que o casamento entre um arminiano e um reformado ou entre um conservador e um pentecostal certamente gerará problemas no relacionamento salvo quando um abre mão completamente de suas convicções, pelo menos quanto às práticas. Quando alguém busca sua outra metade deve ter certeza de que a teologia envolvida é semelhante.

Anuência dos pais: A participação dos pais nesta escolha não se limita a um pequeno detalhe ou prática de somenos. Todo jovem crente deve pedir autorização do pai e da mãe, bem como dos sogros em potencial. A lógica é muito simples, trata-se dos futuros avós dos filhos que virão no futuro. Ambos serão parte ativa da família neste convívio que durará até a morte. Neste contexto alguns perguntam “e quando os pais não são crentes e proíbem movidos por motivos mesquinhos?” Bem, isso não dá liberdade para a desobediência. Lembremos aquilo que Salomão afirma: “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer” (Pv 21: 1). Isso significa dizer que assim como um humilde agricultor pode mudar o curso das águas de um riacho para regar a sua plantação, o Senhor Deus possui o coração do homem mais importante e temido da sociedade em sua mãos. Quando os pais, mesmo descrentes proibem, independente de suas motivações, o jovem deve orar ao Senhor para que mude o coração de ambos. Se for da vontade do Pai, haverá mudança, caso contrário, é melhor desistir.

Visão de futuro: Imaginemos o seguinte: a moça possui chamado para trabalhar no Camboja como missionária, já o rapaz pretende ser um profissional liberal na cidade onde vivem. Muitos diriam: “mas o importante é que se amam muito e, no final das contas, acertarão as arestas, certo?” Errado! Este critério deve ser descoberto com muita conversa, pois, das duas, uma, ou um desiste numa boa de seus projetos de vida, ou haverá grande frustração ao longo da vida. O período denominado de namoro não deve ser utilizado para contato físico, deve ser utilizado para muita conversa e oração para que venham a tona estas questões.

Tempo de namoro: Quando sinto fome, procuro comida. Quando sinto sede, procuro água (ou um refrigerante light). O mesmo princípio se aplica ao namoro pois quando desejo me casar, devo procurar alguém de Deus para isso. É absolutamente pouco inteligente alguém iniciar um namoro tendo como prioridade um curso acadêmico com duração de cinco anos ou a construção de uma casa pelo período de seis anos. Se alguém inicia um namoro significa que o casamento é sua prioridade zero num curto espaço de tempo. Ninguém deve namorar por um período menor que dois anos e mais de três anos. A falta de objetivos promove o relacionamento perigoso que, com o passar do tempo, leva ao pecado sexual (que vai do beijo bucal ao coito). Ninguém deve namorar por namorar, se se inicia o namoro, isso significa que o casamento passou a ser a minha prioridade zero quanto ao meu futuro. Lembro também que ninguém deve namorar com pouca idade. O correto é ele ter 21 anos e ela 20 anos no mínimo.

Concluo esta postagem fazendo os seguintes acréscimos: primeiro, em um relacionamento, a paixão deve ser o último critério a ser considerado, aliás, nem deveria ser critério para a escolha. Quando falo paixão, sentimento que se baseia apenas na atração física, isso não deve ser confundido com o amor, sentimento que inclui e ultrapassa a atração física, abrangendo todo o ser. Este amor completo, sim, deve ser utilizado como critério na escolha. Segundo, o homem deve sempre demonstrar maturidade com Deus maior ou semelhante a da mulher, nunca aquém. E, terceiro, sempre deve haver o acompanhamento e aconselhamento feito por um pastor ou um casal experiente.

Acredito que se os jovens crentes seguirem estes princípios, certamente terão grandes chances de constituir um matrimônio maduro e abençoado pelo Senhor Deus.

Sola Scriptura.

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Vamos Evangelizar!

 Vamos Evangelizar!

                                                                                                                                                        Pr. Charles Melo de Oliveira

Geralmente, quando acontece alguma coisa boa conosco queremos logo contar para algum amigo: a aprovação no vestibular, o novo emprego, o bom negócio... Da mesma forma, quando vemos um amigo em situação de perigo, nos apressamos em alertá-lo. Diante disso, a pergunta é: por que temos dificuldade em fazer o mesmo em relação à obra salvadora de Cristo e em relação à ameaça da execução da justiça divina sobre os ímpios? Por que devemos evangelizar?

1. Porque é uma ordem do nosso Senhor Jesus Cristo (Mc 16.15) Jesus ressurreto apareceu aos discípulos e lhes ordenou que pregassem o evangelho a toda criatura. Nesse texto vemos uma ordem expressa do Senhor à sua igreja. Não se trata de uma mera opção como fruto de nossa volição apenas; é questão de obediência à Palavra de Cristo.

2. Porque a evangelização é necessária para a salvação do pecador (Rm 10.14-17) – É um privilégio poder contribuir para a salvação dos eleitos de Deus. Deus decretou a salvação de muitos e também o meio pelo qual seriam alcançados: pregação da Palavra. Embora a frase de São Francisco de Assis, a saber, “pregue; se necessário, use as palavras”, seja célebre, no entanto parece desmerecer a importância do discurso em si. A articulação de argumentos, a proclamação não são apenas importantes; são fundamentais: “e assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).

3. Porque a pregação da Palavra nunca será em vão (Is 55.11) – Nem sempre a pregação será respondida satisfatoriamente. Mas e se isso acontecer? Terá sido em vão a pregação? Não, pois o texto de Isaías 55.11 mostra que a Palavra do Senhor não volta para ele vazia, mas sempre cumpre um propósito. Se ela for aceita, cumpriu a função de trazer salvação; se não for, cumprirá a função de trazer juízo. Quando o exército romano no tempo do Império chegava de uma campanha vitoriosa, trazia presos inimigos e os fazia desfilar com o exército vencedor. Adiante deles, iam os sacerdotes com seus perfumes. Ao final do desfile, os presos eram mortos, de forma que o mesmo perfume que aspiravam tinha cheiro de vitória para os vencedores e de morte para os derrotados. Foi pensando nisso que Paulo escreveu: “Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas? Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus” (1Co 2.14-17).

4. Porque devemos agir como atalaias (Ez 3.18,19) – Assim como o atalaia de Israel deveria anunciar o perigo iminente, deveria anunciar a verdade, mas não sabia se os ouvintes seriam salvos ou não da aflição, nós também devemos fazer o mesmo. Lembremo-nos de que, no caso de omissão de nossa parte, Deus pedirá contas. Caso cumpramos nossa missão, ainda que o ouvinte não creia, estaremos livres de qualquer reprovação por parte do justo Juiz.

5. Porque hoje é dia de boas-novas (2 Rs 24.6-7.20): Quando os sírios cercaram Samaria, nos dias do profeta Eliseu, a fome reinava na cidade. Quatro leprosos famintos entraram no acampamento dos inimigos (porque não tinham nada a perder e morreriam de qualquer forma mesmo) e se depararam com as tendas cheias de comida, mas sem ninguém por perto, porque Deus provocara um barulho ensurdecedor e eles pensaram que eram exércitos mais fortes que eles. Apavorados, fugiram e deixaram tudo para trás. Os leprosos comeram, mas, sabendo que a cidade de Samaria estava padecendo, disseram: “Não fazemos bem; este dia é dia de boas novas, e nós nos calamos; se esperarmos até à luz da manhã, seremos tidos por culpados...” (2Rs 7.9). Sei que o texto não fala sobre o tema “evangelização”, mas ele ilustra perfeitamente o espírito da evangelização. Devemos compartilhar os banquetes espirituais dos quais desfrutamos domingo após domingo com os “famintos” de justiça que nos cercam. Enquanto muitas pessoas tentam se fartar com paixões mundanas, idolatrias, mentiras, sentimentos e afetos vazios, porém morrem de fome espiritual, nós nos calamos enquanto saciamos nossa fome através das Escrituras, sem dividir com ninguém mais. Isto não é certo!

É hora de encarar o evangelho de Cristo como a melhor coisa que nos aconteceu, pois desta forma começaremos a divulgá-lo com coragem. Eu não posso deixar de imaginar o semblante de decepção de muitas pessoas quando estiverem diante do justo Juiz apresentando-se de mãos vazias porque simplesmente não compartilharam o evangelho com as pessoas que as cercavam. Por vergonha? Talvez, mas é inaceitável. Devemos dizer como Paulo: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê...” O poder de Deus jamais poderá ser motivo de vergonha.


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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

MANTENDO UM BOM CLIMA NO CASAMENTO

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, 

Conta-se a história do político que morreu e teve a oportunidade de escolher para onde gostaria de ir. Evidentemente isto é uma piada e assim deve ser vista. Não é ensino teológico. Visitou o céu e viu coros, anjos, harpas, gente assentada, ouvindo ensinos e explicações, tudo tranqüilo. Visitou o inferno e gostou do que viu: mulheres bonitas, pouco vestidas, bebidas, boa música, comida farta, piadas, risos, ambiente agradabilíssimo. Voltando aonde deveria definir sua situação, disse ao anjo da recepção que o céu era bom, mas o inferno era melhor. Preferia ir para lá, ao que o anjo concordou. Gosto é gosto. Lá chegando, abriu a porta, levou um tapa violento, foi pisoteado, fincado em um garfo e jogado num caldeirão. Viu que todos estavam sendo tratados assim, e que o quadro era de desespero. Perguntou ao demônio que por ali passava porque aquilo estava acontecendo, se antes era tudo tão atraente e promissor. O demônio lhe respondeu que isto fora antes. Agora já haviam conseguido seu voto e ele tinha que agüentar a realidade. 

 Mutatis mutandis, isto acontece em muitos matrimônios. Já se conseguiu o “sim” da outra parte e agora o cenário real aparece. A pessoa surge sem máscara, como é. Os momentos tão agradáveis do passado cedem lugar a um caldeirão onde se é espetado diariamente. Esta circunstância sucede por causa de um equívoco. O momento do casamento foi visto como linha de chegada e não como linha de partida. Usando a figura de uma corrida, o namoro e o noivado foram a corrida e agora parece que se chegou aonde queria. O namoro e o noivado devem ser vistos como aquecimento e o casamento como a corrida. Agora é que vai começar o relacionamento verdadeiro, sem máscaras, sem atrativos para ganhar o voto da outra parte. 

Tendo isto em mente, alinhavo a seguir algumas idéias para seguir no rumo proposto, “Mantendo um bom clima no casamento”. Há casamentos azedados, e outros quase a azedar. Mas há alguns em que a doçura permanece. Há alguns pontos que quero observar com vocês e peço sua atenção para eles. Poderão ajudar nossos casamentos a não azedarem. Apenas ajudar, friso, porque somos nós quem o azedamos ou adoçamos a relação. 

1. A CONSCIÊNCIA DO QUE FIZERAM 

É preciso ter consciência do que fizeram ao se unirem pelos laços do matrimônio. Com algumas variações e poucas exceções, o quadro, em geral, é este: Homem – você tirou uma moça da casa dos pais dela; Mulher – você saiu da casa dos seus pais e atrelou sua vida à dele. É este o sentido de “serão uma só carne”. Uma nova unidade surgiu, vocês dois. Fizeram um acordo. Os dois são um. Foi uma atitude consciente, responsável, e na qual devem investir suas vidas. O maior investimento será a partir de agora. O maior investimento não foi quando o rapaz “passou a conversa” na moça ou quando a moça “seduziu” o rapaz. O maior será desde agora. Muitos casamentos falham porque os cônjuges o dão como um produto terminado, como se fosse algo completo. O casamento nunca é completo. É algo que se constrói no dia a dia. Uso muito esta figura: não é um baobá maduro e sólido, mas uma plantinha tenra, a ser adubada e regada, todos os dias. O adubo é atenção, ternura, cortesia, boas palavras. E todos os dias devem se tirar as ervas daninhas, como ciúmes, desejo de mando, manipulação, chiliques, grossura, etc. 

O que fizeram no dia do sim? “Casaram-se”, dirá alguém. Visão simplista. “Começaram o casamento”, digo eu. Ele só estará concluído quando acabar. E só acaba pela morte de um dos dois, como é o desejo de Deus. Infelizmente, alguns acabam pelo divórcio, não como vontade expressa e direta, mas sob concessão de Deus. O que fizeram foi iniciar uma jornada em comum. Não a vejam como se fosse uma jornada pessoal, em que um é coadjuvado pelo outro, nem uma jornada de 2 beligerantes, mas uma jornada comum. Andar juntos é o que decidiram fazer. Não é apenas dormir juntos. Caminhar juntos. Uma das dedicatórias mais bonitas que já vi em um livro foi a que Francis Schaeffer fez em O Deus que Intervém, para sua esposa, Edith: “Para aquela que tem andado de mãos dadas comigo por uns curtíssimos trinta e cinco anos”. Marido apaixonado, Schaeffer expressou bem o segredo de um casamento bem sucedido: andar de mãos dadas, e o tempo, por maior que seja, sempre é curto. Como Camões, gênio maior de nossa língua e um dos motivos de orgulho de Portugal, disse do amor de Jacó por Raquel: “Mais servira, se não fora/Para tão longo amor tão curta a vida”. 

2. CONSTRUIR A REALIDADE 

O período de namoro e noivado é de encanto e o do casamento, de realidade. Assim entendem muitos. Expressão infeliz. Uma das coisas mais encantadoras é conhecer lugares novos. E conhecer gente nova também é bom. Mas conhecer aspectos novos de pessoas conhecidas também é bom e encantador. Ajuda muito a viver bem. 

A realidade do casamento não é cruel nem má, como algumas piadas parecem indicar. Na verdade, a realidade do casamento não existe, como algo a receber. O casal a constrói. A realidade de cada casamento não é um traje pronto que envergamos, mas um que tecemos. O período pré-casamento e o período do casamento não são realidades colidentes, em choque uma contra a outra. A realidade que o casal constrói deve ser a projeção dos sonhos do período de encanto. Há alvos que foram delineados. Se não acontecem, que não se desista, mas que se os persigam. Talvez alguns devam ser reformulados, mas um casamento sem alvos é meio descolorido. 

Muitos cônjuges destroem os sonhos e se queixam que a outra parte os destruiu. Sonhos são acalentados por pequenas coisas. E aniquilados por pequenas coisas. Homem, leve flores, abra a porta do carro para ela entrar, guarde e comemore as datas especiais para vocês. Mulher, lembre-se do prato especial dele, arrume-se para ele (há mulher que só se arruma para sair), dê-lhe apoio. No relacionamento conjugal a educação no trato deve existir. Há casais que vivem em estado permanente de beligerância. Desarmem-se, evitem os golpes baixos (dos quais falei na penúltima palestra) e construam sua realidade de maneira positiva. As coisas, principalmente as coisas boas, não acontecem por acaso. Devem ser trabalhadas. Nós construímos. 

Há pessoas que, por força de sua atividade profissional, são gentis com estranhos. Mas nem sempre o são no trato com a família. Um casamento não pode prescindir de um clima de cortesia no trato, mais que a relação profissional exige. Bons modos se praticam em casa, e com o cônjuge, mais que em qualquer outro lugar e mais que com qualquer pessoa. 

 3. AUTODOAÇÃO 

Conta-se a história de uma mulher que teve à sua porta, um dia, um pedinte perguntando se ela não tinha alguma coisa velha e imprestável para ela e que pudesse dar, que não lhe faria falta. Ela prontamente respondeu que sim e apontou o marido refestelado, roncando, numa poltrona. Autodoação não é isto, doar algo que deveria ser uma parte nossa. Deixem-me tentar explicar. 

O período de namoro e de noivado é de querer agradar a outra parte. No período de casamento, a atitude de alguns muda: querem ser agradados. A pessoa se torna intransigente. Uma das frases mais infelizes que alguém pode pronunciar é esta: “Sou assim e não mudo”. Ora, se pensa desta maneira, vá ser ermitão ou ermitã. Vá morar no mato, longe de todo mundo. Então não precisará mudar. Poderá ser o bugre (não torcedor do Guarani) que deseja ser. A vida é relacional. Temos sempre que nos adaptar a outras pessoas, lugares e situações. O casamento é uma empreitada relacional. Não se trata de impor um estilo de vida à outra parte, mas de procurar se relacionar bem com a outra parte. Isto implicará em mudanças. De ambos, não apenas de um. Se os dois se ajeitam, 3 acabará surgindo um estilo comum aos dois, que nem mesmo era de um. Os dois se autodoaram e fizeram surgir um novo caminho. 

Se você deseja experimentar grande progresso em seu casamento, não espere que seu cônjuge se sacrifique ou se autodoe ou se ajuste a você. Pergunte-se: “Em que posso agradá-lo (a)? Como posso melhorar?”. Muitos querem amor, ou seja, querem doação. Mas não amam, ou seja, não se autodoam. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro”, diz João. Jesus nos deu amor e é por isto que nós amamos a ele e uns aos outros. Quem ama não precisa pedir amor. Ele vem. Dificilmente alguém responde a amor com pontapés. Autodoe-se em seu casamento. 

 4. ENFOQUE CORRETO 

Ouça muita gente dizer “Tenho o direito de ser feliz!”. Que significa isto? Que significa “tenho direito”? Direito pressupõe obrigação. Raramente ouço alguém dizer “Tenho a obrigação de tornar meu cônjuge feliz!”. E o que significa ser feliz? Ser adulado? Ser satisfeito em caprichos? Presumo que Madre Teresa de Calcutá fosse uma pessoa feliz. E havia optado pela pobreza e serviço aos hansenianos. Li, nesta semana, de um playboy paulista do passado (omito seu nome para não dar ibope a quem não merece), que no fim da sua vida fútil se sente frustrado. Quando escuto alguém dizer que “tem o direito de ser feliz” fico com a impressão de que pensa que a outra parte deve ser seu capacho (como há homem que procura mulher capacho!) ou satisfazer seus chiliques (e há mulheres – homens também – chiliquentas). E deveres, têm? Quais são? Porque não os declara e busca cumprir? 

Seu alvo no casamento deve ser tornar seu cônjuge feliz. Se você conseguir isto, será feliz. Há homens que são conquistadores, pulando de cama em cama com razoável regularidade. Como disse alguém, conquistar uma mulher por dia é fácil. O difícil é conquistar a mesma mulher todos os dias. Seduzir um homem por dia não é difícil. Mas seduzir e encantar o mesmo homem todos os dias é mais difícil. Tenho visto que as pessoas mais realizadas na vida matrimonial não são as que reclamam amor, mas as que dão amor. Não as que buscam felicidade, mas as que buscam tornar alguém feliz. Tenhamos o enfoque correto: vida para outros e não a vida dos outros para nós. Viva para seu cônjuge. Aqui repito a autodoação, mas não por falta de planejamento. É que estes dois tópicos são gêmeos. 

Há maridos tão mesquinhos, que as mulheres, dependendo deles economicamente, precisam implorar um batom ou uma bijuteria. E há maridos que nunca têm companhia. Aliás, isto já foi assunto em outra ocasião: mulher, seja mãe, seja avó, mas não deixe de ser esposa. Lembre-se da sua outra parte. Um cônjuge só faz lembrar a música de Chico Buarque: “ó metade arrancada de mim”. Quando alguém se sente bem sem a outra parte, está com enfoque errado. Foi mutilado e não sente. Está mal. E um casamento em que uma parte está mal não demora a afundar, se não for tratado. Porque 50% de gangrena podem evoluir para 100%. Se já perdeu a metade, o resto pode acabar. Para regredir precisa de tratamento. 

5. VIRTUDES MAIS QUE DEFEITOS 

Veja as virtudes mais que os defeitos de seu cônjuge. Uma vez disse isto a um casal e ela me respondeu: “Pastor, ele não presta, só tem defeitos!”. Bem, pelo menos uma virtude ele tinha: aturava uma atitude desta. 

 Nos momentos de crise é fácil enxergarmos os pontos negativos. Mas deve haver alguma coisa positiva. É curioso como racionalizamos questões espirituais e nem sempre fazemos assim com questões emocionais. Trabalhando tanto tempo em seminário teológico, vi muita gente que raciocinou desta maneira: não conseguiu passar no vestibular, então entendeu que Deus o chamava para ser pastor. Isto é terrível. Parece que ser pastor é ser o rebotalho, o resto do mundo. Já que não 4 deu para nada, vai ser pastor. Mas é uma forma de racionalizar o fracasso. Procurou uma possibilidade na derrota. 

Há boas possibilidades na vida conjugal. Há recursos a usar, como a oração, o exercício da esperança cristã, a caminhada no amadurecimento, o diálogo, o aconselhamento. Mas o ponto central é que um casamento que passa por crises, quando estas são superadas, tende a se tornar estável, pois foi provado e sobreviveu. Não estou falando de conformismo, mas de desafio de uma luta a travar. Jogar a toalha é um recurso extremíssimo. A questão é que tenho visto que, em muitas ocasiões, a perspectiva da pessoa é pior que a situação propriamente dita. Ela se predispôs. Até mesmo quando resolve dar uma segunda oportunidade, já estabelece “senões”. 

 Se há um ponto positivo, por que não investir nele? Se só os pontos negativos são vistos será que não é mais uma questão de ótica? A postura de só ver pontos negativos é uma variação da postura acusatória, em que se tenta colocar a outra parte em desvantagem na negociação. Depreciando-a por completo, o depreciador se põe em posição de vantagem, pois tudo que intentar poderá ser justificado. Esta atitude não é honesta. Cuidado com ela. Evite-a e veja as áreas em que você pode soerguer seu casamento, e não afundá-lo. Trabalhe e potencialize as virtudes, os pontos fortes de seu casamento. 

6. SENSO DE ADAPTAÇÃO 

Senso de adaptação é compreender que casou com aquela pessoa, que ela é assim. Não pode permanecer naquela de “Você não era assim!”. Pode até ser verdade, mas isto não leva a nada. Algumas vezes a pessoa já era assim, mas a parte hoje queixosa não viu ou não quis ver. Agora culpa a outra pela sua cegueira. 

Pode-se não gostar de como a pessoa é, mas esta não é a questão principal. A principal é “Como ajudá-la?”. Em outras palavras, como estabelecer um bom clima relacional. Isto não significa trazer a pessoa ao nosso jeito. É como encontrar um jeito de se fundirem, de os dois se encontrarem. Um dos segredos de um casamento bem sucedido não é tornar a pessoa um clone seu ou moldá-la ao seu prazer, porque não se está em luta para ver quem prevalece, mas complementar a pessoa. Cada um de nós é incompleto. Nenhum de nós se basta. Até o narcisista é incompleto porque na sua doença precisa de aplausos. Deus nos fez entes incompletos e só nos completamos no outro. Este é o sentido de “Não é bom que o homem esteja só”. Não é porque precisamos de alguém com quem brigar ou de alguém a quem molestar. Mas de alguém a nos acompanhar e a quem acompanharmos. Casamento é companhia. Companhia pressupõe adaptação mútua. Muitas vezes, alguém quer mudar seu cônjuge, mas não a si. Lembra-me uma frase de Mark Twain: “Todo mundo fala em mudar o mundo, mas ninguém fala em mudar a si mesmo”. Quem queira mudar o mundo, deve mudar-se a si mesmo. E quem queira mudar os outros deve mudar-se a si mesmo. De preferência para melhor. Isto é adaptar-se. Se você quer mudar seu cônjuge, observe se já mudou a si mesmo em suas deficiências (que geralmente você sabe quais são). 

 Há maridos que querem ser os eternos filhinhos da mamãe. A esposa é uma segunda mamãe a cuidar e paparicar dele. Há esposas que querem ser as eternas menininhas do papai. O marido é alguém a satisfazer seus caprichos. “Deixar pai e mãe” não significa romper relações com os ancestrais nem abandoná-los. Significa ser capaz de assumir uma nova função na vida. E casamento é isto, uma função nova, à qual devemos nos adaptar. Deve haver cuidados, óbvio. Não devemos, no entanto, viver com quem só espera ser cuidado. 

CONCLUSÃO 

Vinícius de Morais disse que “o amor é eterno enquanto dura”. Tenho pena dele, apesar da sua frase de efeito ter encantado tanta gente desprevenida. Paulo disse que “o amor nunca acaba”. 5 O verdadeiro amor nunca acaba. O casal bem sucedido não é aquele em que o lar nada em dinheiro e ele, o casal, passa as férias na Europa, ou aqueles em que ambos têm sempre carro do ano ou possuem as últimas novidades elétricas e eletrônicas. Pode haver dureza e pobreza, mas o casal realmente bem sucedido é aquele em que, passados os anos, os dois podem olhar um para o outro e dizer: “Eu escolhi bem. E escolheria você novamente”. Isto não acontece por acaso. É algo que deve ser trabalhado. E só acontece quando se trabalha bastante para que isto aconteça. 

Talvez eu os escandalize, mas creio que já me conhecem. Após quatro anos de pastorado sabem que seu pastor não é lá grande coisa, mas não anda dizendo bobagens nem heresias por aí. Os casamentos não são feitos no céu. Não acredito nesta história de que quando alguém nasceu Deus preparou seu cônjuge. Se isto fosse verdade, minha mãe foi grandemente injustiçada. Minha madrasta nasceu dois anos antes dela se casar com meu pai. Ou seja, quando minha madrasta nasceu, minha mãe ainda não se casara com meu pai, mas Deus já decidira pela viuvez de meu pai, antes de seu casamento, para minha madrasta casar com ele. Será que não havia ninguém no mundo para se casar com aquele bebê, dezenove anos depois? E as pessoas que não se casam? Deus não escolheu ninguém para elas? Deus abençoa nossos casamentos, mas eles são escolhas humanas. Deus abençoa nossas escolhas. Mas muitas vezes nós as tomamos sem consulta a ele. O andamento de nosso matrimônio é nosso. Nós escolhemos com quem casar. E nós construímos o tipo de casamento que vivenciamos. Esta é a questão: escolhamos viver bem e esforcemo-nos para isto!

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